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21/05/2008
Identificar as moléculas com maior potencial, maximizar resultados da investigação e antecipar a entrada do medicamento no mercado não são objectivos utópicos, mas resultados de uma metodologia inovadora utilizada na produção do primeiro fármaco português.
A farmacometria começa a dar o primeiros passos a nível internacional e, em Coimbra, um grupo liderado pelo docente universitário Amílcar Falcão tem aprofundado esta metodologia pluridisciplinar, tendo um artigo científico da sua autoria relacionado com o tema atingido, no quinquénio 2002-07, o top 50 dos mais citados do Journal of Chromatography B, uma das publicações mais prestigiadas na área bioanalítica associada às Ciências da Saúde.
Desde a fase inicial da investigação, indicando ao cientista os caminhos que perspectivam maior sucesso, até à fase de ensaios clínicos e de escolha da posologia, a farmacometria intervém e pode ajudar a poupar tempo, a reduzir a margem de fracasso e a economizar no investimento.
Trata-se de uma metodologia que, embora tenha uma forte componente de computação e de bioestatística, dependendo do tipo de intervenção na investigação, recorre a especialistas das mais diversas áreas - da medicina, bioquímica, genética, química, monitorização matemática ou da farmacoeconomia, entre outras.
«É toda uma área que transversalmente está relacionada com o desenvolvimento de medicamentos e que nos próximos anos irá revolucionar bastante a forma como encaramos esse desenvolvimento», declarou à agência Lusa o investigador, docente da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra.
Amílcar Falcão interessa-se e estuda a farmacometria há mais de uma década, mas só aprofundou a metodologia quando passou a integrar como consultor o projecto de desenvolvimento do primeiro medicamento da farmacêutica Bial, que lhe deu a possibilidade de interligar saberes do académico e de quem está «no terreno».
Na sequência desse envolvimento com a Bial, criou há dois anos um grupo no Centro de Neurociências de Coimbra que se tem dedicado a responder às solicitações da indústria farmacêutica, mas também a desenvolver projectos próprios que passam pela optimização de ferramentas que proporcionem novas soluções nestes domínios.
A farmacometria - segundo o investigador - intervém logo no início da investigação para ajudar o próprio cientista na escolha da molécula ou moléculas que apresentam mais potencialidades, pois nem sempre aquela que é mais potente é a melhor, tendo em conta a intervenção de outras variáveis no processo, como a segurança e a toxicidade.
«À primeira vista, e é o que tem acontecido no passado, pega-se na mais potente e é essa a que é boa, mas pode chegar ao homem e não funcionar. Não devemos olhar para características isoladas; temos de fazer ver o quadro completo daquilo que está relacionado com a criação de um medicamento novo», salientou.
Quando se consegue colocar uma molécula nova no mercado - acrescenta Amílcar Falcão - «ficaram milhares pelo caminho, algumas com potencial importante, porque não se tiveram em consideração critérios científicos em bases sólidas, mas feelings dos investigadores».
«Temos a convicção firme de que muitos erros do passado poderiam, e terão de ser, corrigidos no futuro para nós aumentarmos os padrões de rentabilidade e qualidade do trabalho que fazemos na área da saúde ao nível dos novos medicamentos», observou.
De acordo com o investigador, antigamente «havia uma visão verticalizada no processo; pensava-se numa molécula isoladamente. Hoje é transversal. Quando o químico tem a molécula imediatamente deve estar em contacto com quem lhe possa dar informações sobre o que fazer dela para evitar problemas mais à frente».
«Podem ganhar-se anos de trabalho e não perder uma molécula boa», sublinhou, realçando que o investimento aplicado na investigação farmacêutica «é enorme» e o retorno financeiro depende da oportunidade de surgimento no mercado e do tempo de duração da patente.
Se em média um medicamento precisa de 12 anos para entrar no mercado, Amílcar Falcão sustenta que com os conhecimentos obtidos com recurso à farmacometria poderão ganhar-se «entre dois e quatro anos», com benefícios notórios em termos económicos para a indústria, de segurança e para a saúde pública.
A farmacometria é uma metodologia que, segundo Amílcar Falcão, apenas agora começa a ver reconhecida a sua validade a nível internacional, porventura em resultado de exigir uma abordagem pluridisciplinar e a «tendência geral internacional ter tido como foco a especialização em áreas muito determinadas».
O grupo de farmacometria que coordena no Centro de Neurociências de Coimbra tem-se dedicado, especialmente, à interpretação de marcadores tumorais e ao desenvolvimento de ensaios que exijam a utilização de menor número de animais nos testes a novos fármacos, que antecedem a experimentação em humanos.
Fonte: DD
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