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Artigo de opinião da professora Paula Campos do IPAM sobre o recomeço do ano

      
Artigo de opinião da professora Paula Campos do IPAM sobre o recomeço do ano
Artigo de opinião da professora Paula Campos do IPAM sobre o recomeço do ano  |  Fonte: IPAM

Recomeço!
Janeiro é para quase todos nós um mês de recomeço. Recomeça um novo ano, recomeça a vida das empresas, recomeçam as fábricas, os serviços. Enfim, recomeça quase tudo o que queremos em cada um de nós, independentemente do papel que assumimos nos diferentes contextos de vida.

Apesar de quase tudo recomeçar em janeiro, há uma parte da vida de quem é filho ou pai, chamada de ano letivo, que chega ao seu primeiro terço, sendo que depois da época festiva as aulas para milhares de alunos e professores retomam um programa educativo em curso, do qual todos nós, quer sejamos pais, familiares ou simples membros da sociedade, fazemos parte como educadores.

Também por isto escolho a educação para refletir convosco algumas dúvidas e também algumas certezas, algumas esperanças e também algumas preocupações que sempre temos tendência a fazer nestes momentos de catarse, de balanço e perspetivas, de recordar o passado com os olhos postos no futuro independentemente dos ventos mais ou menos favoráveis às mudanças que, ano após ano, ambicionamos.

Penso que apesar das diferenças que nos caracterizam há uma onde acredito existir unanimidade: a educação é um dos pilares mais importantes do desenvolvimento de qualquer país. Talvez por esta verdade estar quase assumida como um paradigma, assistimos a um enfoque sistemático no desenvolvimento de políticas de atuação que se centram prioritariamente no sistema, e na necessidade de se produzirem mudanças, que de preferência produzam resultados quantificáveis que validem esse mesmo sistema.

No entanto, quando olhamos para esses resultados, percebemos que uma grande percentagem de jovens abandona precocemente a escola, que o mal-estar docente decorrente de problemas crónicos de colocação dos professores é um fenómeno recorrente, que a escola não prepara para dar respostas às necessidades do mercado de trabalho.

Cada ciclo de vida que se repete, encerra em si um potencial enorme de mudança, pois de forma quase inconsciente fazemos o balanço do passado e projetamos sonhos para o futuro, conscientes que há frustrações que temos de aprender a gerir, ansiedades que temos de controlar, mudanças que temos de aceitar.

Assim, neste recomeço, existem alunos prontos para virar a página de um eventual arranque em falso, para enfrentarem a novidade do novo ano sem que o ano deles seja novo. Aproveitar o momento para uma segunda partida, onde se refundam com mais exigência, mais competitividade, renovando a esperança de que a aprendizagem seja de vez uma paixão. Que o momento de catarse combata a repetição dos mesmos erros ano após ano e com eles os sentimentos menos positivos e quase sempre conduzem à desmotivação.

Neste recomeço, há professores que retomam as suas rotinas e conseguem de forma motivada enfrentar os novos desafios que os faz em cada ano renovar os votos com a sua vocação para a profissão, mas também há centenas de professores conhecidos e anónimos, que com muitos anos de profissão, continuam a viver a angústia do “jogo de cabra cega” sem saberem onde em cada ano vão ensinar. A única coisa que sabem é que têm de deixar os seus, escolher outro lar, mais solitário e distante, outras escolas com outros colegas e alunos, ter mais despesa ainda apesar do vencimento não aumentar.

Tenho um profundo respeito por estes profissionais a quem tudo se exige, desde a competência técnica para ensinar, competência comportamental para lidar com as diferenças inerentes aos jovens que têm como alunos, equilíbrio emocional diante da indefinição.

Os danos psicológicos, esses ficam por conta da pessoa que existe em cada professor, o sistema preocupa-se somente com os resultados, que são como sabemos cada vez mais exigentes.
Neste recomeço, também há famílias e nelas, o estado emocional de muitos pais é fundamental para a construção da realidade dos seus educandos. Neste recomeço, há empresas que numa lógica de parceria estão atentas aos jovens talentosos que saem das faculdades ávidos de poder fazer bem e cada vez melhor. Empresas socialmente responsáveis, que promovem criativamente sistemas de recompensas e incentivos, capazes de reter os seus talentos; mas também há empresas que exploram, que querem conhecimento a custo zero, que exigem tudo sem nada dar em troca, levando muitos jovens a procurar fora do País as oportunidades que não encontram no sitio, onde quase todos gostariam de ficar.

Nesta catarse de mudança marcada por cada recomeço, fica pelo menos a boa notícia de que existem cada vez mais notícias do sucesso dos portugueses pelo mundo, e se não mais, isso faz-nos sorrir e momentaneamente enche o nosso ego de orgulho e esperança.

Há cada vez mais notícias do sucesso dos portugueses pelo mundo

Esperança que o País acorde de vez e perceba que apesar dos ventos favoráveis de retoma económica, é um sinal de extrema pobreza não conseguirmos reter o conhecimento que produzimos, limitando-nos a congratular e condecorar quem sendo nosso, não está connosco, e mais triste ainda, na maior parte das vezes não por sua vontade, mas porque teve de ser. Que o recomeço do ano comece a mudar de vez o fado de repetir desejos sem obter resultados. Chegou a hora do recomeço durar mais que o curto intervalo que separa dois Janeiros.

Sobre a Professora Paula Campos do IPAM

“Doutorada em Psicologia, divide a sua atividade profissional entre a investigação e a docência universitária sendo professora do IPAM Porto, e a Gestão de Pessoas, área onde trabalha como consultora, tendo mesmo sido Presidente da Associação Portuguesa de Gestão de Pessoas – APG- Grupo Regional Norte.

Autora de inúmeros artigos na área da Psicologia da Educação e Gestão de Recursos Humanos, é ainda autora do livro “Crónicas do meu sentir””

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