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Entrevista

"As mulheres como líderes, não devem defraudar, e carregam por isso um enorme fardo sobre os ombros", diz Virgínia Ferreira

      

Virgínia Ferreira

Doutorada em Sociologia, é Professora Auxiliar da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e Investigadora Sénior do Centro de Estudos Sociais. 

• De acordo com os dados da ONU, a América Latina é a região do mundo com mais mulheres no poder (1 mulher no parlamento por cada 4 homens). Podemos considerar que a América Latina está na vanguarda da paridade entre homens e mulheres na esfera política?


Não creio que esta pergunta tenha uma resposta clara. Quando pensamos em vanguarda na paridade entre homens e mulheres na esfera política tendemos a pensar nos países nórdicos, nos quais os partidos políticos instituíramcotas voluntárias para as suas listas eleitorais, alguns ainda durante os anos setenta do século passado. Mas é certo que, quando comparamos a América Latina com a média dos países ditos desenvolvidos, os números daquele continente destacam-se (média da participação das mulheres nos parlamentos dos países desenvolvidos é apenas 25%). Encontramos algumas das razões na história recente destes países. No início deste século, havia 19 países que tinham instituído a reserva de lugares nas listas eleitorais, sendo 10 do continente latino-americano. A Argentina foi o primeiro país a adotar esta política, em 1991 (30% das listas deveriam ser reservadas às mulheres). Seguiu-se-lhe o Paraguai e o México, em 1996, a Bolívia, a Costa Rica, o Panamá, a República Dominicana, o Equador e o Perú, em 1997, e, por fim, o Brasil, em 1998. Trata-se de países, considerados de desenvolvimento intermédio, que saíam na década de noventa, de um modo geral, de ditaduras, algumas militares, e que procuravam então a reconstrução das suas instituições e a consolidação dos seus regimes democráticos recentes. Se passarmos para a Europa, e excluirmos o caso da Bélgica, apenas registávamos esta política de cotas instituídas por força da lei em países recentemente saídos de conflitos armados, como era o caso da Bósnia Herzegovina, Macedónia, República da Sérvia e Montenegro. Mas, atenção, paridade não significa igualdade. Trata-se de um registo meramente numérico – qual a proporção de posições na esfera política que é ocupada por mulheres. Resta saber se os interesses que representam conseguem impor-se nas estruturas em que participam.

 

• Considera que assistimos a mudanças significativas desde que as mulheres chegaram ao poder nesta região e no mundo? Quais?


A política é mais do que um dispositivo de execução de promessas eleitorais. A política faz-se fazendo-se. Nesse sentido, é importante a presença das mulheres e a sua participação nos processos de tomada de decisão. Os estudos têm mostrado que a maior participação das mulheres nestes processos leva a uma maior atenção a alguns domínios particularmente importantes para as vidas das mulheres e das suas famílias, nomeadamente, as políticas de bem-estar e proteção social. Não significa que todas as mulheres tenham o mesmo ponto de vista na política – de acordo com a sua ideologia política podem definir os problemas de modo diverso e, portanto, também, apontar para soluções diferentes. Vemos, com efeito, neste momento que as três presidentes dos três maiores países da América Latina prosseguem políticas diferentes: Cristina Kirchner, na Argentina; Dilma Rousseff, no Brasil; Michelle Bachelet, no Chile. O caso destas três mulheres, que aliás não devem ser consideradas um conjunto homogéneo pois há grandes políticas entre elas, mostra que as expectativas de mudança que as mulheres podem trazer à política são pouco realistas. Com efeito, na atualidade, os três países são confrontados com casos de corrupção, alguns bem próximos delas. Isto evidencia a falácia que é o argumento do carácter mais incorruptível das mulheres no poder.

 

• Quais acredita serem as condições chave para que as mulheres possam concorrer a um cargo político, tanto nesta região em concreto, como no mundo?

As condições-chave passam pela existência de um quadro jurídico que assegure a igualdade de oportunidades entre mulheres e homens e pelo acesso generalizado das mulheres à educação. Para acelerar o ritmo da mudança, há que dar início a um conjunto de reformas institucionais quer se trate de leis eleitorais que sancionem as organizações políticas que não respeitem o patamar definido de participação das mulheres, quer se trata de dispositivos de incentivo à participação das mulheres, como sejam os incentivos financeiros, a sensibilização, a formação em igualdade tendo em vista a capacitação de potenciais líderes, o apoio a grupos de autoajuda, os programas de mentoring, etc.

 

• Na sua opinião, como é que a sociedade encara as mulheres enquanto líderes?

Creio que as submete a uma dupla avaliação do seu desempenho – como líderes e como mulheres. Como líderes não devem defraudar as expectativas de como devem atuar enquanto mulheres. Carregam por isso um enorme fardo sobre os ombros. Enquanto a feminização dos cargos de decisão não atingir um patamar determinado, de forma a poder mos falar da existência de uma “massa crítica”, esta dupla avaliação continuará a ser imposta às mulheres enquanto líderes.

 

• Acredita que e possível atingirmos a paridade absoluta entre homens e mulheres, não só na esfera política, como também académica, científica, empresarial, etc? O que e que está a faltar para podermos atingir esta meta?

É a esperança de que tal será possível que me move. O que está a faltar é os homens assumirem a sua quota-parte de responsabilidades familiares e erradicar de vez o modelo tradicional de família – heterossexual com dois papéis – o de produtor e o de reprodutora.

 

• Actualmente quem poderemos considerar como figuras-chave de liderança feminina?

A nível mundial, diria Hillary Clinton.

 



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