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Entrevista

Fuga de cérebros: "Portugal é presentemente um dos países europeus com maior emissão de emigrantes qualificados", diz Anabela Romano

      
Fuga de cérebros:

Anabela Romano

É professora da Universidade do Algarve, da qual foi Vice-Reitora e onde coordena o Laboratório de Biotecnologia Vegetal.

  • 1) A que se referem as expressões fuga e roubo de cérebros, e qual predomina no nosso país?

Ambas as expressões se referem a emigração qualificada. A expressão “fuga de cérebros” é normalmente usada para caracterizar a deslocação de capital humano com altos níveis de formação, qualificação e desempenho dos países menos desenvolvidos para os mais desenvolvidos. A expressão “roubo de cérebros” é utilizada quando essa deslocação é estimulada por práticas de recrutamento ativo. Estas expressões são usadas numa multiplicidade de sentidos, muitos deles discutíveis ou mesmo errados. De facto, parece um contrassenso discutir a questão da “fuga” ou “roubo” de cérebros na era da globalização, da criação de redes e da mobilidade. A “circulação” de cérebros é inevitável a partir do momento em que se abolem fronteiras, se criam espaços de mobilidade, redes de colaboração,e se globaliza a economia e a sociedade.

Portugal é presentemente um dos países europeus com maior emissão de emigrantes qualificados, em virtude da crise económica que atualmente vivemos. Segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística o desemprego tem vindo a aumentar desde o início da crise (14% em 2014), e é particularmente elevado entre os jovens, sendo a taxa de desemprego na faixa etária superior a 25 anos de 35%, superior ao dobro da taxa total. Também a taxa de desemprego entre licenciados tem vindo aumentar, sendo de 10% em 2014. A crise económica tem levado muitos portugueses a emigrarem para países com melhor nível de vida e mais oportunidades de carreira, podendo enquadrar-se parte desta mobilidade na expressão “fuga de cérebros”. Também a mobilidade de profissionais qualificados para países como Angola, Moçambique e Brasil, que não se enquadra na “fuga de cérebros”, tem aumentado. Por sua vez, o recrutamento organizado por diversos países de grupos profissionais de áreas como Medicina e Saúde, Engenharia e Investigação, entre outras, que se tem verificado, pode configurar a situação de “roubo” de cérebros.


É de referir que parte das saídas protagonizadas pelos trabalhadores altamente qualificados configura situações de mobilidade. Muitos movem-se à procura de melhores qualificações e de lugares mais prestigiados condizentes com a respetiva formação. Muitos outros movem-se entre filiais dentro de empresas multinacionais e outras organizações internacionais, caracterizadas por estratégias de recrutamento e por formas de mobilidade geográfica que entendem a mobilidade como uma forma de desenvolvimento profissional. As deslocações dos qualificados seguem, portanto, as flutuações na qualidade da oferta de trabalho e de emprego, levando assim à circulação do conhecimento.

 

  • 2) Que fatores influenciam as pessoas levando-as a ponderar deixar o seu país para trabalhar ou estudar noutro?

Previamente à crise económica, os profissionais que se destacavam pelos elevados níveis de educação e competência profissional (como altos quadros executivos de empresas, quadros ligados ao desporto, artistas e cientistas), atraídos pela centralidade de alguns polos de desenvolvimento nas áreas respetivas, deslocavam-se para destinos perspetivados como espaços de excelência, com melhores oportunidades de carreira. Esta mobilidade surgia normalmente na sequência das suas atividades ou como resposta a ofertas de trabalho com recompensas económicas mobilizadoras.


Os dados mais recentes parecem indicar que a maioria dos quadros qualificados saido país devido ao clima de austeridade e de aumento de desemprego, desencorajados em relação ao futuro do país. Algumas das razões apontadas são a falta de condições ou perspetivas de futuro, ausência de emprego qualificado na sua área de formação, busca de maior rendimento individual, melhoriada formação académica ou profissional, melhores oportunidades de carreira, melhor qualidade de vida.


As razões para ir estudar noutro país são diversas. Muitos dos nossos jovens têm dificuldades em aceder ao ensino universitário em virtude da rigidez do regime de acesso e encontram essa possibilidade mais facilitada noutros países (ver por exemplo as dezenas de candidatos a medicina que, não tendo lugar nas universidades portuguesas, se vêm forçados a uma emigração precoce para  perseguir a  sua vocação). Outros fazem-no mais tarde já num nível mais avançado da sua formação académica (mestrado ou doutoramento), fugindo às dificuldades de acesso a bolsas de estudo.


Numa fase de desinvestimento na investigação e no ensino superior, são cada vez mais escassas as oportunidades para jovens investigadores. Basta lembrar a redução consistente no número de bolsas de doutoramento e pós-doutoramento que se tem verificado nos últimos anos. Grande parte dos jovens que tomam a decisão de abandonar o seu país e tentar a sua sorte noutro local são, muitas vezes, melhor sucedidos quando terminam as suas graduações, tendo maior facilidade de entrar no mercado de trabalho.


Nas últimas décadas a mobilidade de formação para estudos graduados ou pós-graduados acentuou-se extraordinariamente, em resultado de programas europeus como o programa Erasmus e outros, que permitiramaos alunos universitários experienciar novas vivências noutros países. Muitas das experiências, inicialmente previstas como temporárias, tornam-se permanentes, com oportunidades de inserção no mercado de trabalho. Também ao nível dos investigadores ouve um forte investimento na mobilidade internacional, previamente à atual crise, tendo-se estabelecido diversos programas com prestigiadas universidades estrangeiras. Todas estas oportunidades têm vindo a contribuir para a redefinição do conceito de mobilidade e o seu afastamento da visão linear como “fuga”.

 

  • 3) Qual é a área de conhecimento e sector produtivo mais propensos à fuga e/ou roubo de cérebros?

Historicamente a área da medicina é uma das mais propensas a essa mobilidade em virtude das altas perspetivas de carreira e de remuneração. A expressão “fuga de cérebros” surgiu nos anos 60, quando os Estados Unidos da América se “apropriaram” dos médicos do Reino Unido. Desde então, a globalização no setor da Saúde tem permitido a livre transferência de médicos, formados nos países do Sul, para o Norte. São frequentes as campanhas de recrutamento de médicos estrangeiros (também portugueses) em países como o Reino Unido, Irlanda, Canadá, Estados Unidos da América, entre outros.


Para além de área da Medicina e Saúde há muitas outras que têm registado um aumento da emigração de licenciados, mestres e doutores, nomeadamente a Engenharia, Economia e Gestão, Arquitetura, Informática, Ciências Sociais, Matemática e Ciências Naturais. Estes profissionais são atraídos por economias mais dinâmicas onde podem exercer a sua atividade na área de formação, auferindo rendimentos mais elevados e com condições de vida mais acolhedoras. Também as economias emergentes têm exercido um poder de atração muito forte em profissionais de áreas como Arquitetura e Engenharia, que apresentam elevados índices de desemprego em Portugal devido à recessão na área da construção civil.


Ao nível da investigação científica tem-se verificado a saída de muitos investigadores doutorados para os EUA e países do norte da Europa, como consequência do desinvestimento na área de investigação. Claramente, Portugal não tem capacidade para absorver o número de doutorados que se têm vindo a formar nos últimos anos. A realidade da mobilidade de investigadores e cientistas está claramente distorcida, não existindo equilíbrio de entradas para compensar o êxodo a que estamos a assistir, sendo necessário um reajuste do leque de talentos.


Na ausência de dados oficiais precisos sobre quais as áreas mais afetadas pela emigração, a perceção geral é de que todas as áreas estão a ser transversalmente afetadas, pese embora existam grupos de profissionais mais requisitados e que, com maior facilidade, encontram oportunidades de emprego noutros destinos.

 

  • 4) Que implicações económicas e sociais têm a fuga e/ou roubo de cérebros?

A mobilidade de capital humano altamente qualificado é um fenómeno inexorável das economias atuais e do mundo globalizado.Os impactos irão verificar-se a médio ou longo prazo e poderão afetar a capacidade de desenvolvimento económico e social do país, a sustentabilidade dos sistemas de proteção social e a demografia.


Esta emigração, associada a um baixo poder de atração e à baixa natalidade, confluem para uma situação de redução significativa da população. Segundo o relatório do Departamento de Assuntos Económicos e Sociais da ONU, publicado recentemente, a população portuguesa irá decrescer 11% até 2050. Em 2030 Portugal será o terceiro país com a população mais envelhecida logo a seguir a Itália e ao Japão, com uma média de idade de 50,2 anos.


A saída de profissionais altamente qualificados envolve a perda do capital investido na educação e formação desses indivíduos, com os consequentes efeitos negativos sobre o crescimento económico e a formação de capital humano. A mobilidade de recursos humanos para empresas estrangeiras poderá até causar sérios danos à economia nacional, até por via do acesso ilegítimo ao conhecimento científico incorporado em produtos desenvolvidos por empresas e outras instituições. Por sua vez, para os países de acolhimento, o recrutamento de profissionais já credenciados será uma enorme mais-valia para as suas economias.


Para além das consequências económicas e sociais haverá também consequências políticas, se o país não for capaz de atrair fluxos de profissionais na mesma proporção, promovendo um equilíbrio de entradas para compensar o êxodo.

  • 5) Qual o papel que a universidade e o governo devem ter neste assunto? Existe algum outro sector que deva atuar em conformidade com esta realidade?

O papel principal na solução dos problemas causados por esta vaga migratória de quadros qualificados cabe ao governo português. É um problema nacional real, que deve receber a mais alta prioridade por parte das autoridades competentes. É essencial que o problema seja olhado de frente, em vez de negada ou mascarada a sua existência, examinar cuidadosamente as suas causas e propor e implementar medidas eficazes para a sua solução. Apesar do papel fulcral das empresas e dos agentes económicos na criação de riqueza, é ao estado que compete promover a competitividade para criar emprego, definindo os quadros globais de ação.


Apesar de não ser especialista na matéria, penso que estas medidas deverão passar por políticas que encorajem o mercado de trabalho, especialmente quando destinadas ao aumento do emprego jovem. Será necessário definir estratégias de desenvolvimento dos vários setores da economia de modo a promover a criação de riqueza e o crescimento económico gerador de emprego, permitindo a absorção de profissionais qualificados e atrair o eventual retorno daqueles que já saíram. É urgente reforçar a confiança no nosso país e promover a esperança na sociedade, e para que isso aconteça é essencial promover um crescimento sustentável, uma sociedade mais próspera e com mais oportunidades.


O sistema universitário tem tido um papel extraordinário no desenvolvimento da sociedade portuguesa. Mesmo assim, a percentagem de diplomados em 2013 era de 29%, enquanto a média europeia se situava nos 37%. Para atingir os níveis planeados para 2020 (40% na faixa etária 30-34) há ainda um longo caminho a percorrer. Os próximos tempos não serão fáceis para as instituições universitárias, muito devido ao desinvestimento do Estado, à falta de financiamento, e aos escassos recursos dos centros de investigação. Vivem-se tempos de planificação a curtíssimo prazo baseada em necessidades imediatas. Neste quadro a sua capacidade de intervenção no suporte ao crescimento do emprego, desenvolvimento e competitividade da economia, está muito limitada. Será necessário redefinir o modelo estratégico de desenvolvimento para que a universidade reassuma a sua importância na sociedade portuguesa como motor de progresso, e para que a sua capacidade de gerar conhecimento possa ser colocada ao serviço da sociedade e influencie o seu futuro.


Mesmo assim, acredito que a universidade fará um esforço gigantesco para se flexibilizar e adaptar, para formar novos perfis profissionais capazes de lidar criativamente com as exigentes transformações em curso num mundo cada vez mais globalizado e competitivo. Reajustar o leque de talentos às necessidades atuais do mercado será provavelmente o maior desafio dos próximos anos num sistema transnacionalizado.

 

  • 6) Que panorama se prevê para os próximos 4 anos?

A crescente fuga de talentos que se tem verificado nos últimos anos demonstra a fragilidade do país para providenciar mecanismos e condições para a fixação da sua população e começa a ter um forte impacto na capacidade de planear estrategicamente os recursos humanos e a gestão do capital humano.


Segundo estimativas recentes do Fundo Monetário Internacional, a taxa de desemprego prevista para Portugal deverá manter-se acima dos 10% até 2020. Se não houver uma retoma com crescimento significativo, Portugal vai demorar duas décadas a reduzir a taxa de desemprego natural para os níveis pré-crise. Por sua vez, a percentagem de desempregados de longa duração continua a subir na Europa, aumentando o risco de erosão de mão-de-obra qualificada e do enraizamento do desemprego. A possibilidade de criação de uma “geração perdida”, resultado da deterioração de potencial capital humano causada pela elevada taxa de desemprego jovem, é preocupante. As perspetivas de médio prazo para a zona euro não são animadoras e a recuperação económica pode ser prejudicada pelos altos níveis de desemprego (especialmente entre os jovens). Em face destas estimativas o panorama que se avizinha não é animador. A situação nos próximos anos só poderá melhorar consideravelmente, se o crescimento nos países em crise for claramente fomentado.


Portugal encontra-se entre os quatro países a nível mundial com maior desajuste entre a oferta e a procura de competências (com Espanha, Estados Unidos da América, e Irlanda),  tendo uma reduzida capacidade em atrair profissionais altamente qualificados em algumas áreas. Será muito importante dinamizar a relação com o tecido empresarial e industrial para que a formação possa suprir as necessidades de emprego.

A resolução destes problemas só será possível com um plano estruturado no diálogo frutífero entre governo, instituições de ensino e empresas. É necessário implementar urgentemente medidas, algumas delas de difícil compatibilização. Por exemplo, reunir as condições para reter o talento que permaneceu em Portugal e para acolher aqueles que queiram regressar e participar no nosso desenvolvimento coletivo esimultaneamente investir na mobilidade, na internacionalização, e em redes de colaboração.



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