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Entrevista

Geração milénio: "muitos substituem os sonhos de uma eventual realização profissional por formações com maiores probabilidades de retorno no mercado de trabalho", diz José Augusto Palhares

      
Geração milénio:

José Augusto Palhares

Professor auxiliar do Departamento de Ciências Sociais da Educação do Instituto de Educação da Universidade do Minho

  • Quais são as características que definem esta geração milénio?

Se nos colocarmos numa perspetiva das ciências sociais e mais especificamente no campo sociológico, a resposta a esta questão deverá necessariamente implicar a formulação de outra questão: de que falamos e de quem falamos quando mobilizamos o termo “geração”? E poderá acrescentar-se, correlativamente: fará mesmo sentido rotular os atuais jovens e os jovens adultos com uma etiqueta não reveladora da sua substantitividadecultural e cidadã? Se no que toca à primeira interrogação nos devemos resguardar reflexivamente na linha de pensamento iniciada em Karl Mannheim (ver tradução castelhana de “El problema de las generaciones”, Reis, 62/93 pp. 193-242) e nos debates subsequentes, levando, por conseguinte, à problematização das expressões “geração babyboomer”, “geração X”, “geração Y”, “geração Z” e a agora denominada “geração milénio”, porque tendem a nivelar/atomizar diferenças significativas aos mais diferentes níveis (classe, género, educação, entre outros), naturalizando fictícias pertenças e identidades com base em critérios etários e administrativos e desenraizando os jovens da sua condição de sujeitos históricos; por outro lado, ao adotarmos acriticamente esta nomenclatura estamos a tornar reais categorias que não passaram satisfatoriamente o crivo da investigação científica em ciências sociais e em educação, antes impondo-se na opinião pública através dos media e de estudos de marketing patrocinados por empresas multinacionais e/ou globais, muitas delas procurando encontrar um padrão ideal-típico do consumidor “milénio”. Independentemente de os jovens atuais comungarem o período de vida em que se encontram e de experienciarem padrões culturais e de consumo próximos do ponto de vista etário, relativamente aos quais se tem vindo a relevar a sua predisposição e fascínio pelo mundo digital e pelos gadgets tecnológicos da sociedade do conhecimento e da informação, tal não elimina outras diferenças estruturais que compõem o quadro contemporâneo da aludida “geração milénio”. Referimo-nos, concretamente, ao alongamento da condição juvenil, cada vez mais ancorada na precariedade e na dificuldade em os “milenares” transitarem para o mundo adulto, não propriamente pela idade mas sobretudo pela retração das possibilidades de os jovens viverem plenamente os direitos e os deveres de cidadania e de se transformarem em cidadãos ativos e participativos.

 

  • Que impacto social, político e cultural tem esta geração no nosso país?

Admitindo que podemos considerar genericamente os jovens e os jovens adultos como “geração milénio”, então desde logo teremos de enfatizar os seus longos percursos de escolarização. Porém, estes percursos e investimentos na escolarização não têm sido compensados devidamente a jusante. O paradoxo socioeconómico que resulta dos elevados índices de escolarização não se traduzirem em uma integração profissional no mercado laboral, com o retorno que daí poderia advir, mitiga, de certa forma, o impacto em termos da qualidade do desenvolvimento da sociedade portuguesa. Malgrado verificarem-se taxas de desemprego juvenil entre os 35 e 40 %, da precariedade dos vínculos laborais, o salto qualitativo na educação e na formação observado em Portugal nos últimos quarenta anos nos diversos níveis do sistema educativo trouxe consigo um novo horizonte de oportunidades e um potencial transformador, com repercussões nas várias esferas da vida social. Para além da democratização política, a sociedade portuguesa foi saindo do ensimesmamento que durante décadas se autoimpôs, muito por via da integração europeia e de outros enquadramentos à escala global. As “novas gerações” são, por isso, herdeiras de novos desafios e diásporas, abertas a novos cosmopolitismos e detentoras de competências e conhecimentos facultados, sobretudo, pelo sistema público de ensino e por outras educações propiciadas essencialmente pelas famílias da nova classe média, provavelmente aquela que anteriormente foi apodada de “geração X”. A crise económica que avassalou o país nos últimos anos pôs as novas gerações em confronto com as adversidadesque emergiramnesta década e meia do milénio. Porventura, o domínio das tecnologias, da língua franca global, da imersão nas mais variadas redes sociais, a formação académica e o alargamento das fontes de conhecimento, tornaram-se ferramentas para o abandono da semiperiferia económica e cultural e o abraçar de novos projetos pessoais e profissionais nos países centrais do sistema capitalista. Dir-se-á que a precarização do “salto” que se fazia na década de 60, sobretudo para França, se faz agora, com as “novas gerações” sob a égide do “salto” dos precários. Antes desqualificados e a pé; agora altamente qualificados e a jacto.

 

  • Podemos considerar esta geração milénio como uma força de mudança social? Porquê?

A resposta a esta questão infere-se, em parte, pela definição mais clássica de “geração”; isto é, mais do que a fase de vida em que se encontram, são as experiências e vivências históricas e culturais dos seus membros, aliadas a uma ideia de sociedade, que definem mais satisfatoriamente este conceito. Assim sendo, a “geração” é portadora de uma narrativa de ação e neste sentido a sua práxis política conduzirá provavelmente à mudança social. Transpondo esta perspetiva para “geração milénio”, o que emerge como tendência é uma certa ideia de fragmentação de percursos e de vidas, arrendando o sujeito de inscrições mais duradoras no plano social e coletivo, muito embora multiplicando o “eu” por diversas identidades e contextos. Ainda assim, mesmo envolvido em práticas de voluntariado, “o milenar” continuou ligado à matriz individualista disseminada nos anos oitenta, pelos progenitores, sendo aquelas práticas, por vezes, subordinadas à procura de oportunidades de conexões laborais e de valorização curricular. No meio de contrastes e indefinições que vêm marcando esta época, tem emergido uma mais forte consciência ecológica e ambiental e a participação em ações cívico-políticas, não obstante a sua intermitência e à margem das lógicas partidárias ou de movimentos sociais institucionalmente enquadráveis. E esta participação social e política ocorre frequentemente deslocada de um espaço físico, fluindo por entre os nós e as redes do ciberespaço, expandindo-se no plano global, com a destreza e o know-how desta “geração” naturalizada no digital.

 

  • Qual é o maior desafio que esta geração enfrenta atualmente (a nível profissional, político, social, económico, tecnológico, etc.)?

Conforme referi acima, grande parte dos jovens e jovens adultos que vivem esta fase de vida foram encaminhados para percursos educativos e formativos de longa duração, como que à procura de uma segurança no competitivo e escasso mercado de trabalho. A difusão da ideologia da aprendizagem ao longo da vida ajudou a criar este cenário, conquanto se iam avolumando os indicadores da volatilidade dos certificados e dos diplomas académicos. Treinados cada vez mais na aquisição para competir no mercado laboral, incentivados para se transformarem em empreendedores e sobressaltados pelas lógicas da empregabilidade, muitos destes jovens substituem os sonhos de uma eventual realização pessoal e profissional por cursos e formações com maiores probabilidades de retorno no mercado de trabalho, já não apenas no espaço nacional mas também noutros contextos internacionais de maior pujança económica. Provavelmente, o maior desafio desta “geração milénio” será o de ajudar a encontrar caminhos para a conquista da sua autonomia em todas as suas dimensões. Esta geração encontra-se perante o esmoronar eminente das estruturas que sustentaram a modernidade ocidental, sendo que hoje são mais as indefinições que as certezas quanto a um futuro cada vez mais longínquo.

 

  • Que fator determinaria a decadência desta geração?

Inerentes à própria noção de geração estão incluídas as condições da sua própria existência. Há, contudo, circunstâncias advindas da crise que atravessamos que a tornam mais frágil: a ausência de uma narrativa consistente de futuro; a contingência de emigração não desejada e um certo nomadismo à procura de melhores condições de vida; a fragilidade dos vínculos no plano laboral; o declínio da classe média, os progenitores “desta geração” e que lhes permitiram o acesso a oportunidades e estilos de vida, nos planos educativo, cultural, de lazer e de consumo; entre outros fatores em atualização nas dinâmicas contemporâneas.

 

  • Que contributo considera ser o mais importante desta geração para com a sociedade?

Os jovens e os jovens adultos que a compõem constituem a “geração” mais educada de sempre, não apenas no concerne à educação formal mas também no que respeita à não-formal e à informal. Para além do mais, estes jovens são detentores de predisposições para a aprender e para expandir o seu horizonte cultural, grandemente alicerçadas e potenciadas pelo domínio das novas tecnologias da informação e comunicação. A sociedade portuguesa veio progressivamente a democratizar-se no plano familiar e muito deste contributo se deveu ao papel dos mais novos na “educação” dos progenitores. Num plano mais vasto, haja vontade e medidas políticas nas diversas escalas de decisão sobre as condições sociais e as contradições que afetam “esta geração” e poderemos assistir, certamente, a uma efetiva transformação da qualidade de vida das sociedades.



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