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Entrevista

"A SIDA é uma patologia crónica para a qual já há resposta terapêutica satisfatória", diz Paulo Nuno Nossa

      

Paulo Nuno Nossa

Presentemente, é docente no Departamento de Geografia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho.

  • Qual acredita ser a principal razão para que a taxa de infeções não tenha conseguido diminuir de forma significativa o número de contágios no nosso país?

De acordo com o relatório publicado no final de 2014 e referente a dados colhidos em 2013, Portugal registou +1089 novos casos de infeção por VIH, maioritariamente ocorridos em homens com comportamento de risco heterossexual (70%), seguindo-se práticas de risco homo/bissexuais em aproximadamente 30% dos casos. Apesar de terem passado mais de 30 anos após a eclosão da epidemia, a manutenção de uma incidência desta grandeza e que deve ser lida à escala do país, quase 3 novos casos dia, pode estar relacionada com crenças de invulnerabilidade – admitindo que a vulnerabilidade é apenas uma condição do outro e, secundariamente, a perigosa ideia de que a SIDA é uma patologia crónica para a qual já há resposta terapêutica satisfatória. Conjugadamente poderemos estar a enfrentar uma desqualificação da mensagem (in)formativa, sinalizada pelo aumento de outras IST como por exemplo a sífilis, o que evidencia o relaxamento das medidas de prevenção. Em muitos países onde o combate à infeção começou “precocemente”- atuou-se em termos de saúde pública no início da pandemia, temos assistido a um aumento relativo do número de novos casos, particularmente em sujeitos que não vivenciaram o drama e o estigma dos estadios iniciais da doença, onde a esperança de vida era reduzidíssima e a descriminação era máxima e ocorria em função da orientação sexual.

 

  • Qual é o setor da população mais afetado e porquê?

Os dados disponibilizados, lamentavelmente, não permitem grande detalhe de análise a este respeito. Sabemos que os novos casos relacionados com comportamento de risco heterossexual em Portugal atingem de um modo equivalente homens e mulheres em faixas etárias mais elevadas, com a mediana nos 40 anos e próxima dos 30 anos de idade para categoria homo/bissexual. Seria muito útil a publicação da incidência por intervalo etário.

Empiricamente percebesse que a infeção está mais eclética i.e., não atinge simplesmente grupos com maior vulnerabilidade social ou com barreiras no acesso à informação antes, também está presente em indivíduos com níveis de qualificação média ou elevada, relativamente jovens. Parece estar a instalar-se um viés na perceção do risco, talvez gerado pela convivialidade com o risco. Isto é mais evidente em comportamentos de risco associados à transmissão homo/bissexual, voltando a atingir indivíduos mais jovens. Poderemos estar a abandonar medidas preventivas e a cair na antiga tentação de medicalizar comportamentos, i.e., encontrar nas soluções terapêuticas alguma forma de mitigação. Muitos sujeitos, após prática de sexo desprotegido solicitam, por sua iniciativa juntos dos prestadores de saúde, profilaxia pós-exposicional…em alguns casos são utentes bem informados que reiteram este comportamento com alguma frequência.


Numa outra dimensão, devemos estar alertas para a exposição ao risco de populações migrantes que têm como destino geografias onde a epidemia de VIH está generalizada e a oferta de sexo comercial é intensa e tem reduzida penalização social.

 

  • Como deveriam atuar o governo, o setor da saúde e o setor privado perante a estigmatização da doença?

No caso português, no presente, o nível de estigmatização é baixo, embora qualquer forma de estigmatização seja absolutamente condenável. Longe vão os tempos em que os sujeitos perdiam o emprego quando se suspeitava de uma possível infeção por VIH, ou as crianças eram impedidas de conviver com outras porque os seus progenitores eram seropositivos. Acompanhei alguns destes casos dramáticos em 2004/2005. Embora as pessoas infetadas pelo VIH procurem manter maior reserva sob a sua condição, houve um enorme progresso na gestão e na compreensão da doença. No caso português, ainda que tardiamente, foi publicada diversa legislação orientada para a promoção de direitos das pessoas VIH+. Neste campo não podemos esquecer o enorme trabalho realizado por grupos de pessoas afetadas pelo VIH (Ex.: GAT, Positivo...) na defesa e promoção de direitos e deveres, bem como no acesso a estratégias preventivas e terapêutica de última geração.


Em 2005, em sede de Plataforma Laboral, foi assinada uma declaração de compromisso sobre o VIH/SIDA, muito inspirada pela UNAIDS e com o apoio da OIT, envolvendo empregados e empregadores, com o objetivo de combater a discriminação e promover informação adequada à prevenção. Neste domínio os progressos foram dignos de nota.

 

  • A informação atual sobre a prevenção do HIV/SIDA é suficiente e de qualidade, e está ao alcance de todos os sectores da população?

Hoje assistimos ao abrandar de campanhas que alertam para o risco de VIH. Na verdade, se as campanhas são desejadas e compreensíveis quando enfrentamos novas realidades ou aumento de incidência, as campanhas sinalizam risco mas por si só não modificam comportamentos e têm uma função recordatória limitada. É através da educação, em idades precoces, que esta abordagem deve ser feita, não só para o VIH mas também para as restantes IST (infeções sexualmente transmissíveis), álcool, entre outros. Necessitamos de fazer uma abordagem formativa capaz de potenciar a autodeterminação do sujeito, torná-lo capaz de gerir o risco tomando opções informadas e conscientes, abandonar o discurso de uma sexualidade punitiva, ao mesmo tempo que os ajudamos a questionar estereótipos de masculinidade/feminilidade. Neste contexto é muito importante proporcionar aos jovens, na escola, informação simples e de qualidade, cientificamente validada, retirando espaço a mitos, ao mesmo tempo que devem ser treinados para enfrentar a pressão de pares, seja no domínio da sexualidade, comportamentos aditivos ou outros. No domínio da educação podemos e devemos fazer melhor.


Por outro lado, esquecemos os mais idosos que não são assexuados mas que enfrentam outros desafios e limitações – os avós também fazem sexo! As “novas” moléculas trouxeram mais qualidade de vida ao domínio da sexualidade, particularmente da sexualidade masculina. Deveríamos apoia-los na gestão do risco. Esta abordagem deveria ser feita por defeito pelos médicos de família, sem exceção. Na realidade são poucos os que abordam esta temática e, maioritariamente, só o fazem por iniciativa do utente. Também aqui temos enorme margem de progresso.

 

  • Qual é o panorama na procura da cura e/ou da vacina que evite novas infeções de HIV/SIDA no país?

Portugal tem alguns investigadores envolvidos nesta pesquisa. Depois de 1996, com o aparecimento da HAART (highly active antiretroviral therapy), os progressos foram enormes e proporcionaram um aumento de sobrevida incrível. Hoje, a maior parte dos esquemas terapêuticos têm uma elevada eficácia, reduzindo muito o potencial de resistência – no qual a adesão do doente continua a deter um papel importante. A eficácia da terapêutica, com diversas soluções e esquemas muito simplificados, com toma única diária, contrastando com múltiplas tomas/dia há 10 anos atrás, a par da redução da toxicidade, foi um passo de gigante na qualidade de vida dos doentes.


A vacina continua na mira da investigação. Dificilmente será um país de per se a conquistar esta meta. Neste domínio, as equipas são internacionais e trabalham em rede com múltiplos financiamentos, pelo que, na minha opinião, será um centro de referência internacional a alcançar este feito.

 

  • Como é atualmente a qualidade de vida de uma pessoa com HIV no nosso país?

Tal como já mencionei, face aos recursos terapêuticos disponibilizados, à sofisticação analítica e à qualidade da prescrição, em Portugal os doentes têm acesso ao gold standard, uma vez que o SNS – de forma gratuita para o utente, segue o que é recomendado por consenso internacional. O leque de soluções está hoje muitíssimo mais alargado, o que permite um resgate de situações clínicas complexas.

Embora haja uma grande variabilidade na evolução da doença, que envolve a atitude do doente e o tempo de deteção/intervenção, a sua adesão, a estirpe de infeção, eventuais episódios de reinfeção, entre outras, há registos de doentes tratados ao longo de 30 anos, com algumas limitações – como existem noutras patologias, mas perfeitamente inseridos do ponto de vista social e laboral.

 

  • De acordo com as declarações da ONU, mais de 50% da população com HIV ainda não recebe tratamento antirretroviral. Neste sentido, qual é a situação atual dos portadores de HIV/SIDA no nosso país e o que os espera nos próximos anos?

No mundo, estima-se que 37 milhões de pessoas estão infetadas pelo VIH (UNAIDS, 2015). A meta estabelecida em 2000 de proporcionar acesso a tratamento adequado a 15 milhões de infetados (40%) em 2015 foi alcançada em Março.

Este ano estabeleceram-se novas metas: acabar com a epidemia de VIH em 2030, i.e., ter o controlo global e efetivo da doença, o que não deve ser confundido com ausência de notificações. Em 2020, ambiciona-se que 90% das pessoas infetadas sejam diagnosticadas e destas que 90% tenham acesso ao tratamento. Dentro deste grupo, que 90% tenha carga vírica indetetável, o que significa: eficácia terapêutica e muito baixo risco de difusão da infeção.

No caso português é expetável que o SNS – apesar da incerteza e de algum desinvestimento nos últimos anos, continue a manter o acesso gratuito a terapêutica antiretrovírica absorvendo também alguma inovação. Exemplos recentes – fármaco para hepatite C (sofosbuvir), mostram que é possível o acesso à inovação em moldes diferentes dos tradicionais, mais vantajosos para as partes, através de negociação e estabelecimento de metas de tratamento. A iniciativa portuguesa de tentar envolver as diversas autoridades de saúde da UE para negociação conjunta de inovação terapêutica foi corajosa e julgo que pode constituir um caminho a explorar no futuro.

O que hoje se oferece aos doentes VIH+ comporta as melhores práticas. É possível que alguma inovação terapêutica – inovação de facto, possa surgir a curto prazo e especificamente orientada para o VIH. Para os países desenvolvidos, o preço a pagar será sempre muito elevado e o debate sobre o acesso à inovação e em que moldes os Estados o podem e devem fazer terá que ser feito obrigatoriamente feito.

 

Paulo Nuno Maia de Sousa Nossa

"Paulo Nuno Nossa é Professor Auxiliar na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Doutorou-se em Geografia Humana em 2005. Ensina no domínio da Geografia da Saúde, Geografia da População e Turismo. Tem produzido trabalhos de investigação no domínio dos determinantes da saúde, políticas de saúde e envelhecimento demográfico. Foi diretor do departamento do Departamento de Geografia da Universidade do Minho 2007-2010."



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