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Entrevista

"A intervenção terapêutica na adolescência é sempre uma tarefa difícil"

      

Otília Monteiro Fernandes

Professora auxiliar de Psicologia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD). Licenciada em Psicologia e mestre em Psicologia Clínica e do Desenvolvimento pela Universidade de Coimbra.

  • Quais são as características da população jovem mais vulnerável à depressão?

Considera-se que a adolescência, por si mesma, é desde logo um fator de risco, porque embora muitos defendam que não é uma etapa de desenvolvimento obrigatória e universal, é verdade que são os jovens que, mais do que as crianças e os adultos, sofrem de perturbações de humor, oscilando rapidamente de momentos de muito entusiasmo e euforia para momentos de tristeza, desânimo e depressividade.

Tudo isto porque nesta etapa da vida, em que já não se é criança mas, também, ainda não se é adulto, chame-se-lhe ou não adolescência (que vem do latim adolescere, que significa crescer), ocorrem muitas mudanças, quer biológicas e fisiológicas, quer cognitivas e psicossociais.

As alterações biológicas e fisiológicas (e especificamente as hormonais) preparam o jovem púbere para a sexualidade adulta e reprodutiva. Essas alterações pubertárias, aliadas a uma cada vez maior maturação cerebral, provocam imensas modificações no ser e no sentir do jovem, que possui agora um corpo e as capacidades dos adultos, mas que precisa de adaptar-se a elas, e concomitantemente, necessita de fazer reajustes nas suas relações: consigo próprio e com os outros.

Esse período de transição e de reajustamento a um novo corpo e a uma nova emotividade é, naturalmente, um período crítico, como dizemos acima, mas é normativo, e felizmente a maioria dos jovens sabe e consegue encontrar o caminho da sua autonomia e identidade.

Como a depressão tem uma etiologia multifatorial, que abarca inúmeros fatores de natureza genética e do meio ambiente (atuais ou do passado, como a família, os pares, etc.), é difícil estabelecer qual o “tipo” de jovens mais vulneráveis para o desenvolvimento dessa perturbação. No entanto, as situações desestruturantes da infância (como a vinculação insegura, os abusos, a negligência, os maus-tratos), os fatores de stresse psicossocial (atuais ou do passado, como o bullying e as relações intrafamiliares conflituosas), bem como a história familiar de depressão (particularmente num dos pais), são fatores de risco que têm sido encontrados e correlacionados, em diversos estudos, tanto como fatores precipitantes da depressão como aqueles que criam uma maior vulnerabilidade nos jovens. 

Porém, podem não existir algumas dessas evidentes e reais situações “depressiogénicas”, o que acontece na maioria dos casos. Há autores que consideram que sendo a depressão uma perturbação da dependência, tal como a anorexia e a bulimia, por exemplo, podemos encontrar a sua etiologia principal na dificuldade (ou mesmo incapacidade) de o adolescente fazer face ao que lhe é solicitado nesse período da vida: que se vivencie fora da dependência parental/familiar infantil, isto é, que saiba construir a sua identidade e autonomia.  Claro que essa dificuldade de separação-individuação não é apenas da responsabilidade do adolescente, mas também de todos os que fazem parte da complexa teia de relações intersubjetivas mais próximas que ele foi tecendo desde que nasceu (em particular com os pais e os irmãos). E é uma evidência: só adolesce e deixa adolescer quem ama e confia que mesmo que “separado e longe” se pode estar “sempre perto e dentro” das pessoas que amamos e nos amam.

As raparigas, talvez porque se autonomizam mais “dentro de casa” do que os rapazes (que se apoiam na separação física, fora de casa, para melhor se separarem psicologicamente da família), e talvez também porque desenvolvem um estilo cognitivo mais introspetivo e ruminativo (estilo de raiz mais cultural do que genético), apresentam maiores taxas de incidência de depressão, duas vezes superior aos rapazes.

 

  • Quais são os tipos de depressão e os sintomas mais comuns nesta faixa etária?

Usualmente consideram-se e distinguem-se 3 tipos: a depressão reativa, subsequente a uma perda significativa e que faz parte do processo de luto; a depressão crónica ligeira (também designada por distimia, ou depressão latente, ou depressão sem depressão); e a depressão major (a depressão verdadeira, ou depressão clínica, ou patológica, ou melancolia).

A depressão reativa é passageira e a sua “causa” facilmente identificável, e esta capacidade de fazer um luto revela até boa saúde mental. O segundo tipo é mais constante no tempo e de difícil diagnóstico, já que normalmente os indivíduos distímicos, apesar da sintomatologia depressiva (mesmo que de menor intensidade e gravidade do que na depressão major), não revelam incapacidade funcional, isto é, continuam no desempenho das suas atividades quotidianas (na família, na escola, no trabalho). Na depressão major, contrariamente, a profundidade sintomática é maior e as relações interpessoais são gravemente atingidas, com isolamento, afastamento e, muitas vezes, ideação suicida.

Os sintomas mais usuais de depressão nos jovens são semelhantes aos dos adultos, embora comparativamente com estes, os adolescentes têm menos condutas interiorizadas e uma maior tendência a agir, e especificamente, revelam: mais irritabilidade, mais agitação motora e mais acessos de raiva e agressividade, e mais comportamentos suicidários (os comportamentos de risco e de cariz suicidário são uma marca da juventude, mas são potenciados pela depressão, sendo que mais de um quarto dos adolescentes deprimidos exibe ideação suicida).

Os sintomais mais comuns de depressão no adolescente são: humor triste, predominantemente disfórico (irritabilidade e agressividade motivadas por sentimentos de frustração), anedonia (incapacidade de sentir prazer em atividades anteriormente gratificantes), alterações de sono (insónia, hipersónia ou sono fragmentado), de apetite (anorexia ou bulimia) e da atividade motora (lentificação ou agitação), que aumentam o cansaço, a apatia, a desmotivação, e dificultam a concentração, o pensar e a tomada de decisões. A baixa autoestima, os sentimentos de inutilidade, de culpa e de desesperança levam a pensamentos frequentes a respeito da morte ou à ideação suicida, e são ainda frequentes queixas psicossomáticas (dores físicas, ansiedade generalizada e ataques de pânico), que traduzem bem como, muitas vezes, o sofrimento psicológico impensável é traduzido e espelhado no corpo.

  

  • Quais os riscos de não tratarmos uma depressão nesta etapa?

Os riscos de uma não intervenção (psicoterapêutica e/ou farmacológica) são reais e graves, porque a depressão no adolescente pode levar à morte física (por consumação de uma tentativa de suicídio, por exemplo), ou pode conduzir a um agravamento da sintomatologia que pode evoluir para a instalação de uma perturbação depressiva crónica, ou para uma perturbação borderline da personalidade, ou mesmo para uma perturbação bipolar. Parece que muitas vezes um quadro de depressão menos grave pode evoluir para uma depressão major, por isso é conveniente não minimizar qualquer sintomatologia depressiva precoce, quer na infância, quer na adolescência.

 

  • Que reação tem normalmente o meio envolvente (família, amigos, escola, etc.) de um jovem deprimido?

O meio envolvente, por ser o contexto mais próximo e o mais significativo para o adolescente, é onde se geram, e acontecem, os focos de maior tensão.  Crescer, isto é, adolescer, não é possível sem conflitualidade e agressividade, porque para que a separação-individuação se faça, o jovem tem de “lutar” pela sua independência e, por isso, “lutar” contra a dependência que tem das pessoas que mais ama, e que são, muitas vezes, os pais, os irmãos, os amigos, os professores... E estes são os primeiros alvos do humor depressivo oscilante do adolescente, que ora os agride e se irrita e encoleriza com eles, ora se isola e afasta e fecha num silêncio incompreendido. Pelo mal-estar e sofrimento que esta crise despoleta no meio envolvente do adolescente, é quase sempre daí que vem o “grito” de alarme e o pedido de ajuda.

 

  • Na sua opinião, quem e como devem atuar para evitar, não só os transtornos depressivos nestes jovens, como também as suas consequências?

A intervenção terapêutica na adolescência é sempre uma tarefa difícil: o adolescente já não é uma criança que os pais/cuidadores trazem pela mão e “obrigam” a um tratamento, qualquer que ele seja, mas também ainda não é um adulto que decide, por si, fazer o tratamento que mais lhe convenha (até porque muitas vezes não tem os recursos, financeiros e cognitivos, por exemplo, para poder fazer essa escolha).

As taxas de abandono do tratamento “proposto” pelos adultos “responsáveis” pelo adolescente (quer sejam os pais, o psicólogo, o psiquiatra, o assistente social, etc.) são elevadíssimas (acima dos 50%). E esta situação ocorre, muitas vezes, porque o adolescente não considera que precisa de ajuda, e embora possa sentir-se em sofrimento, negar ter necessidade de tratamento pode ser também uma reivindicação da sua independência/autonomia. Por outro lado, criar uma aliança terapêutica com um adolescente é um processo longo e complicado, porque nesta altura da vida, e ainda mais com um processo adolescencial perturbado, qualquer adulto pode ser considerado como pouco confiável.

Por isso mesmo, os dispositivos grupais (como o psicodrama) e algumas intervenções psicoeducativas e/ou expressivas (como a arterapia, por exemplo), podem ser abordagens mais aliciantes e de maior alcance terapêutico na adolescência, e especificamente na depressão juvenil.

 

  • Que perspetivas tem da depressão juvenil para daqui a cinco anos no nosso país?

A realidade é sempre muito movente e imprevisível, mas se se mantiverem, por exemplo, as taxas de natalidade com que atualmente nos confrontamos (segundo os dados dos Censos de 2011, em Portugal, mais de metade dos casais com filhos têm apenas um), isto quer dizer que vamos ter mais adolescentes filhos únicos do que com irmãos. Sem diabolizar os filhos únicos (os dados das investigações, minhas e de outros autores, não mo permitem), o certo é que estamos cada vez mais inseridos em agregados cada vez mais pequenos, que não nos dão a possibilidade de experimentar vários tipos de laços de parentesco e sociais, e que podem propiciar uma maior proteção dos filhos, e acarretar, provavelmente, maiores dificuldades de separação da família.

E sem grandes redes afetivas, os adolescentes difundem-se nas redes sociais, vazios de afeto, mas cheios de amigos virtuais e gadgets e tecnologia. Esta geração do milénio, como muitos já lhe chamam, pode ser um bom terreno para a depressividade, e como a adolescência é uma etapa charneira entre a infância e a adultícia, compreende-se que é de capital importância olhar para a saúde mental destes jovens, porque cuidando deles estamos a cuidar da (nossa) humanidade.



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