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Notícias

Entrevista

"Não creio que estejamos, em geral, preparados para a velhice e não em particular os jovens", diz Ricardo Peixoto

      

Ricardo Peixoto

Professor Auxiliar Convidado na Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais do Centro Regional de Braga - Universidade Católica Portuguesa

  • Em Portugal como se prevê que vá aumentar a população da terceira idade nos próximos 35 anos?

Segundo estatísticas do relatório das Nações Unidas deste ano, prevê-se que em 2050 40% da população portuguesa tenha mais de 60 anos, acima da previsão para a União Europeia, que se prevê em 34% da população. Nessa altura seremos a 4ª população mais envelhecida do mundo, a seguir à Espanha, à Coreia do Sul e ao Japão, que terá o primeiro lugar neste ranking.

Numa análise que prevê vários cenários do Instituto Nacional de Estatística (INE), o cenário considerado mais provável prevê que em 2050 a população com mais de 65 anos corresponderá a 35% da população total portuguesa. Para efeitos de comparação, as estatísticas do INE apontam para uma proporção de 20,3% de sujeitos com mais de 65 anos no ano passado, em 2014, quando em 1970 o mesmo grupo tinha um peso de apenas 9,7%.

 

 

  • Os jovens do país estão preparados, em termos económicos, de saúde, de prevenção, de emoções, etc., para a velhice?

Não creio que estejamos, em geral, preparados para a velhice e não em particular os jovens. Embora a nível de saúde e de prevenção estejamos cada vez mais atentos ao que se constitui como sendo saudável e prejudicial, o ritmo de vida frenético nem sempre permite que essa prevenção seja feita ou que optemos pelo que é mais saudável. Já em termos económicos, enquanto houver famílias que têm obrigatoriamente que pensar apenas no presente, devido ao exercício de sobrevivência com o que têm e que muitas vezes não chega, não poderemos ter gente preparada para poupar a pensar num futuro que tende a ser visto como distante.

 

 

  • Como será a qualidade de vida que vão enfrentar na altura?

É difícil de prever. Sem querer parecer pessimista, parece-me que se não houver uma verdadeira visão, estratégica e global do país relativamente ao lugar dos idosos na sociedade, relativamente à forma como se poderão constituir como uma contribuição activa para a sociedade e relativamente aos meios de sobrevivência depois de ser atingida a idade da reforma, a qualidade de vida tenderá a descer cada vez mais. Os idosos são, neste momento em Portugal, um grupo desprotegido e não é por acaso que cada vez mais se ouve falar de verdadeiros dramas humanos entre idosos.

 

 

  • Estão a ser tomadas as medidas necessárias por parte da administração pública para atender a este sector no futuro?

Tendo em conta que a sobrevivência da população idosa passa pela população activa e pelas suas contribuições ao nível do sistema de Segurança Social, tendo em conta que a proporção de idosos está a aumentar relativamente à população activa e tendo ainda em conta que uma parte da possibilidade do sucesso de um sistema deste tipo passa pela reposição populacional, não creio que a administração pública esteja, de momento, a tomar as medidas necessárias. Nesta altura seria importante projectar o futuro do país, tendo em conta as estatísticas apresentadas acima, no sentido de conseguir a integração dos idosos a nível social e no sentido de garantir não apenas a sobrevivência, mas uma vida digna. As respostas sociais existentes, como os lares e os centros de dia, deveriam, a meu ver, ter como alvo de intervenção não apenas o idoso, mas o idoso e a sua família. O papel do idoso, como guardião da história familiar, contador da história e de estórias familiares, como elo de ligação à identidade dos membros familiares de gerações posteriores à sua geração e a gerações anteriores, desconhecidas da geração familiar mais jovem, é de extrema importância, ao permitir que cada membro familiar se conheça mais profundamente e se compreenda melhor. Permitirá também uma melhor preparação para a sua própria 3ª idade. Acredito que quanto melhor for compreendido, hoje, o que é ser idoso, mais facilmente haverá uma preparação para o ser e maior será a capacidade de para se prepararem as gerações futuras para essa etapa.

 

 

  • Quais são os principais problemas que enfrenta o sector da terceira idade no país (falta de oportunidades, abandono, etc.) e que tanto mudarão no futuro?

Penso que os principais problemas do envelhecimento terão necessariamente a ver com a própria etapa dessa velhice, dependendo ainda da forma como esse envelhecimento é percepcionado. Por exemplo, uma pessoa com 60 anos é muitas vezes já vista como idosa, mas ainda faz parte da população activa.

Numa primeira fase, à medida que a idade da reforma se aproxima, um dos problemas passa pela falta de oportunidades no mercado de trabalho (uma breve pesquisa em termos de emprego permite verificar a pouca oferta de emprego a partir dos 50 ou 55 anos de idade), numa idade mais inicial do envelhecimento.

Na altura da reforma, a forma como se passa de um membro activo da comunidade para um membro reformado traz sentimentos de ambivalência e de ausência de propósito. A pessoa poderá ver-se como ainda capaz de contribuir, mas a sociedade poderá não ter essa percepção nem dar essa oportunidade. A busca de um novo lugar na sociedade, onde existe a pressão de se ser produtivo, não é fácil.

Numa altura posterior, em que já existe alguma dependência por parte do idoso, o abandono e a negligência são problemas evidentes e que surgem de várias formas. A institucionalização dos idosos, que como resposta social traz grandes vantagens no apoio às famílias dos idosos, é vista muitas vezes como uma resolução do “problema” que o idoso constitui, em vez de ser vista como um complemento e uma intervenção técnica. Infelizmente verifica-se demasiadas vezes que os técnicos se tornam a família do idoso na instituição.



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