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Entrevista

Amor em tempos de Apps: "A existência de novas tecnologias dá novas formas de expressão a comportamentos", diz Professora Patrícia Pascoal

      
Amor em tempos de Apps:

Professora Patrícia Pascoal

Professora Auxiliar. Directora do 1º Ciclo de Psicologia. Sub-coordenadora do 2º Ciclo em Psicologia Clínica e da Saúde. Coordenadora do Mestrado Transdisciplinar de Sexologia. Assessora Pedagógica da Direcção

  • Considera que, com o uso da tecnologia, a forma de nos relacionarmos amorosamente tem vindo a mudar?

As tecnologias, especialmente as de comunicação, têm um impacto inevitável e não controlável nas interacções humanas. Um dos aspectos fascinantes, do ponto de vista da psicologia e de outras disciplinas, é a apropriação que as pessoas fazem da tecnologia, como as adaptam às suas necessidades, como redefinem muitas vezes o conceito original e levam os investigadores e fabricantes a se adaptar e a dar resposta.

  • Quais são as principais razões pelas quais as pessoas preferem usar a tecnologia para se relacionar?

Não podemos dizer com segurança que "as pessoas preferem usar as tecnologias para se relacionar". Essa expressão é ela própria já indutora de uma visão que pode não estar fundamentada. Desde a revolução industrial que de uma forma bastante evidente e algo padronizada as pessoas integram as novas tecnologias de comunicação nas formas pré-existentes, aumentando o leque de opções e adaptando-as a diferentes contextos. O que é fascinante é que a constelação de formas adoptadas varia de pessoa para pessoa e de tipo de relação para relação. Esta diversidade de possibilidades de interacção é fascinante, pois as possibilidades fazem muitas vezes emergir aspectos da personalidade que já existiam. Um bom exemplo é o stalking ou o cyberbullying. A existência de novas tecnologias dá novas formas de expressão a comportamentos, ou atitudes já existentes. São essas novas formas de expressão e o seu impacto que é interessante estudar e conhecer.

  • Que perigos enfrentam as pessoas que recorrem a sites para encontrar um companheiro/a? E perante estes perigos, que precauções devem ter os utilizadores destas Apps ou sítios web?

Do ponto de vista emocional, correm os mesmo perigos que encontram quando se envolvem num "encontro cego", ou metem conversa com alguém: podem experimentar emoções muito positivas e negativas, paixões etc. Curiosamente e ao contrário do que a pergunta sugere, através da internet e sites de encontros, há um primeiro nível de sondagem e interacção que permite que a pessoa pondere e avalie se pretende passar a um envolvimento mais próximo. A "Máquina" e o software são uma forma de protecção, um terreno de experimentação algo segura. Tal como entrar no site, retirar está ao alcance de um click. O facto de existir pessoas que correm risco e as se envolvem em situações problemáticas está mais relacionado com variáveis de personalidade e temperamento do que com a tecnologia. Não sei se faz sentido falar de precauções do ponto de vista emocional, mas podemos pensar que as novas tecnologias permitem a expansão de alguns comportamentos como o stalking, a humilhação a diferentes contextos e sob diversas formas (print screen de conversas, divulgação de fotos íntimas etc em diferentes plataformas sociais) e é muito difícil uma pessoa proteger-se deste tipo de atitudes. Por outro lado também permitem o reforço em tempo real dos sentimentos positivos e relações significativas, mesmo à distância.

  • Qual o perfil mais comum dos utilizadores que decidem encontrar um companheiro através da internet?

Não tenho dados empíricos actualizados para lhe responder a esta questão.

  • Qual a percentagem de pessoas que procuram o amor na internet e quais são as Apps ou páginas mais usadas no nosso país?

Não tenho informação actualizada acerca deste assunto.
Parece-me contudo que a questão é uma boa oportunidade para clarificar alguns aspectos, nomeadamente o conceito de amor. O conceito de amor é multidimensional, i.e., é diversificado, há vários tipos de amor (por exemplo, amor romântico é distinto de amor companheiro) e as pessoas experimentam e procuram experimentar formas de amor diversas e distintas. Se o que procuro no outro é distinto do que o outro me pode ou quer ou consegue dar, aqui sim podemos estar em terrenos de vulnerabilidade para a satisfação e bem-estar na relação.

  • Que probabilidades de êxito tem um casal que acaba de se conhecer na internet?

À partida diria as mesmas que outro qualquer. Contudo o que é uma relação de êxito para uns pode não ser para outros... Um casal que vive uma relação intensa, mas que acabou da qual se orgulham e mantém boas memórias e bons níveis de amizade e intimidade, tem menos êxito que um casal que se mantém, mas com níveis de satisfação conjugal baixos e distanciamento gradual?

Entre a diversidade de factores que se associa à satisfação e qualidade conjugal (e.g., satisfação sexual, expressão de sentimentos, níveis de compromisso) o local onde a relação emergiu, ou começou, por si próprio não é um factor importante.

Com certeza que o estigma que ainda existe acerca da utilização da internet e das aplicações para fins amorosos e/ou sexuais pode criar em algumas dificuldades e até profecias (negativas) auto-realizadoras, i.e., "esta relação já nasceu de forma torta, por isso não pode correr bem"

 



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