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Entrevista

Serão os jovens uma peça-chave na execução de actos terroristas?

      
Serão os jovens uma peça-chave na execução de actos terroristas?

Paulo Macedo

Paulo Macedo é mestre em gestão da Segurança pelo Royal Military College of Science – Cranfield University e doutorando em Ciências Sociais, especialidade de Estudos Estratégicos, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. 

 

Depende do que se entenda por peça-chave. Os jovens são, neste momento, um pilar operacional importante dos actuais grupos terroristas, mas a peça-chave parece ser uma liderança que tem uma estratégia bem definida, objectivos claros, meios para os atingir, bem como capacidade para atrair jovens desenraizados e descontentes com as condições de vida que constrangem os seus desejos de futuro.


Podemos afirmar que o número de jovens que se envolve e participa em actos terroristas tem vindo a aumentar e terá tendência para continuar a aumentar nos próximos 5 anos?


Um analista não deve fazer futurologia; os dados actuais não permitem fazer projecções a 5 anos nesta matéria dado que existe um conjunto de respostas dos Estados que não têm resultados imediatos mas estão a ser implementadas. Por outro lado, os jovens são, por definição e natureza, volúveis pelo que a qualquer momento poder-lhes-á surgir outro interesse ou elemento suficientemente dissuasor que os afaste do mundo terrorista, em particular no que se refere aos jovens ocidentais; no que se refere aos jovens árabes, a sua atracção pelo terrorismo está mais ligada a factores sociais, designadamente falta de emprego, falta de perspectivas de vida familiar e, simultaneamente, um grau educacional relativamente elevado o que os frustra ainda mais, levando-os a procurarem aquilo que lhes parece poder ser um meio de não só alterar a sua realidade social mas também o de pensarem que se poderão apropriar do que o que lhes hoje é negado (aos mais diversos níveis); a religião já não parece ser um factor determinante na atracção dos jovens para as actividades de terrorismo, conquanto sirva de camuflagem até para interesses mais mundanos não-confessáveis.


A quem compete erradicar os actos terroristas em cada país?


A cada Estado. Tal não invalida que as formas de luta contraterrorismo não obriguem à partilha de informações e a operações conjuntas, entre outros meios, entre vários Estados ou mesmo na comunidade internacional em sentido lato.

 

Que medidas ou acções para combater o terrorismo considera que podem ou devem ser tomadas pela sociedade civil?


A sociedade civil pode contribuir para a luta contraterrorista mantendo, e “obrigando” o poder político a manter, o seu modo e condições de vida; cada vez que a vida em sociedade (em particular na sociedade ocidental) altera a sua forma de estar em função de acções terroristas, os terroristas consideram que valeu a pena actuarem o que, em vez de os limitar, vai potenciar a sua existência e até eventualmente a produção de actos cada vez mais terríveis.

 

De que forma é que o terrorismo afetou a nossa forma de viver e quais são as consequências mais visíveis na nossa vida quotidiana e para as gerações futuras?


Ver resposta anterior.


Obviamente que fomos afectados na nossa liberdade individual, privacidade e condições de vida; veja-se o que se passa actualmente com uma simples viagem de avião e nas condições de suposta segurança em que são realizadas; veja-se que basta uma simples ameaça terrorista para se parar uma rede de transportes; veja-se o gasto financeiro descomunal com as medidas antiterroristas que são tomadas em todos os países, verbas que naturalmente são retiradas a outros investimentos que o Estado deveria fazer nomeadamente no apoio e desenvolvimento social; e, não menos importante, veja-se que a desculpa da luta antiterrorista leva a um cada vez maior aumento do controlo social por parte dos Estados, ao nível da vigilância local e global do cidadão, ao nível do controlo financeiro e, inclusivamente, chega-se a proibir o acesso via internet a sites supostamente de organizações terroristas.

Não houvesse um complexo segurança-industrial a ganhar biliões com o negócio do anti e do contraterrorismo e dir-se-ia que os terroristas já atingiram os seus objectivos de nos manterem na defensiva e, de alguma maneira, sob coacção.

 

De acordo com a sua perspetiva, como definiria um ato terrorista? Que características deve ter para se poder classificar como tal?


Um acto terrorista procura a prossecução de um objectivo político-ideológico, é levado a efeito por indivíduos, ou grupos de indivíduos, que utilizam intencionalmente e repetidamente a violência física contra não-combatentes visando intimidar e/ou coagir um alvo mediato muito superior ao alvo imediato.

Deve, portanto, possuir as seguintes características:

- Tem um objectivo político-ideológico;

- Utiliza violência física intencional e repetida;

- Visa uma assistência superior às próprias vítimas do acto.

 


Sobre Paulo Macedo

É mestre em gestão da Segurança pelo Royal Military College of Science – Cranfield University e doutorando em Ciências Sociais, especialidade de Estudos Estratégicos, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.

Professor auxiliar convidado da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, lecciona as disciplinas de Teoria e Gestão de Riscos, Sistema de Protecção Civil, Terrorismo, e Crime Organizado na licenciatura em Estudos de Segurança; é Director da pós-graduação em Direcção e Gestão da Segurança e da pós-graduação em Ciência Política e Segurança.

Os seus interesses de investigação centram-se nas áreas dos processos de tomada de decisão, da segurança nacional, intelligence estratégica e terrorismo.





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